
Aos oitenta anos de idade, marca histórica que alcança exatamente nesta quarta-feira (1º), o cantor e compositor Alceu Valença continua a desafiar abertamente as leis da física e da biologia. Sua voz permanece impecavelmente vigorosa, sua presença cênica continua ocupando os palcos com a mesmíssima eletricidade de cinco décadas atrás e sua obra consolidou-se como o maior inventário vivo da musicalidade nordestina do último século.
Transitante entre aboios, pífanos, guitarras elétricas, frevos rasgados, psicodelia pura e cantorias sertanejas, o artista pernambucano ergueu uma das arquiteturas sonoras mais originais da história da música ocidental. Enquanto boa parte da crítica especializada insistia, por décadas, na tentativa reducionista de rotulá-lo sob a etiqueta de "música regional", Alceu respondia com genialidade, expandindo o próprio conceito do que o Nordeste poderia representar na vanguarda da música contemporânea.
A Gênese: De São Bento do Una às Salas de Harvard
A trajetória desse ícone brasileiro tem início na cidade de São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco, onde nasceu no ano de 1946. Filho de Décio e Adelma Valença — e irmão de Aécio, Décio e Delminha —, Alceu quebrou os padrões tradicionais da família ao ser o único a enveredar profissionalmente pelo universo da arte. O dom magnético, contudo, já corria nas veias, herdado do avô Orestes (poeta e violeiro) e de seu tio Geraldo (poeta e escritor).
Por ser filho de um promotor de Justiça, Alceu viveu uma infância itinerante, mudando constantemente de município. Essa dinâmica permitiu que ele absorvesse, em cada parada, a riqueza das festas populares, bandas de pífano, emboladas de rua, cantorias, procissões católicas e cavalhadas — elementos que, anos mais tarde, reapareceriam completamente antropofagizados em suas composições. O batismo dos palcos ocorreu precocemente: aos cinco anos de idade, conquistou o segundo lugar em um concurso infantil no Cine Teatro Rex, em Goiana, cantando o clássico "É Frevo, Meu Bem", de Capiba.
Curiosamente, a música quase perdeu espaço para as ciências jurídicas. Alceu formou-se em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e, em 1965, conquistou uma disputada bolsa de estudos de três meses na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Em solo americano, o jovem universitário aproximou-se do movimento hippie e chegou a testemunhar de perto reuniões dos Panteras Negras, em Boston. A advocacia, no entanto, jamais teve forças para competir com sua avassaladora vocação artística.
A Era dos Festivais e a Invenção da Psicodelia Nordestina
A engrenagem profissional começou a girar no início da década de 1970, período em que os grandes festivais de música funcionavam como um campo de resistência e vitrine criativa em plena ditadura militar. Foi no Festival Internacional da Canção de 1972 que a figura de Alceu estourou nacionalmente pela primeira vez, ao defender a faixa "Papagaio do Futuro" ao lado de Geraldo Azevedo e Jackson do Pandeiro.
No mesmo ano, a parceria com Geraldo rendeu o álbum de estreia da dupla, popularmente conhecido como “Quadrafônico” (1972) — termo que, na verdade, fazia referência ao moderno sistema de gravação utilizado no estúdio, e não ao título oficial da obra.
A partir dali, Alceu mergulhou em sua fase mais radical e experimental. Enquanto o cenário musical da época importava os conceitos do rock progressivo anglo-saxão, o pernambucano propôs uma ruptura estética revolucionária: transformar a psicodelia em uma extensão natural do DNA da cultura nordestina. Dessa safra antológica, nasceram os álbuns que hoje formam uma trilogia mítica na MPB:
A Estratégia de Guerrilha e o Estouro de "Catende"
Em 1975, Alceu invadiu o Festival Abertura com a canção "Vou Danado pra Catende", uma composição genial que entrelaçava memórias afetivas de sua meninice aos versos cortantes do poeta Ascenso Ferreira, contrapondo o ritmo caótico das metrópoles ao desejo profundo de regressar ao interior.
Naquela antológica apresentação, ele foi respaldado por uma verdadeira constelação da psicodelia recifense: integrantes da histórica banda Ave Sangria — Paulo Rafael (baixo), Ivinho (guitarra), Israel Semente (bateria) e Agrício Noya (percussão) —, além das participações luxuosas de Zé da Flauta, Lula Côrtes (no tricórdio) e Zé Ramalho (empunhando a viola).
O impacto do festival resultou na montagem do show "Vou Danado pra Catende", que estreou no prestigiado Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro. A temporada, contudo, começou flertando com o desastre financeiro: no terceiro dia de apresentações, a bilheteria registrou o público inacreditável de apenas cinco pagantes. Diante do fracasso iminente, Alceu acionou uma tática de pura guerrilha urbana:
Munido de um megafone improvisado feito de papel, o artista percorreu pessoalmente as calçadas e as areias da praia de Copacabana, divulgando o espetáculo de boca em boca.
O resultado da audácia foi imediato: a temporada encerrou com filas quilométricas dobrando o quarteirão do teatro e gerou o material bruto para o antológico disco "Vivo!" (1976). Ali, o palco deixava de ser um mero espaço de execução musical para se transformar em um transe cênico, onde a voz de Alceu rasgava os arranjos com fúria hipnotizante, antes mesmo de ele se tornar um fenômeno comercial de rádio.
O Fenômeno Pop de Massas e a Explosão do Frevo
Se os anos 1970 foram marcados pelo experimentalismo cult, a década de 1980 chegou para coroar Alceu Valença como um dos maiores vendedores de discos do Brasil. Em 1982, o lançamento do LP “Cavalo de Pau” quebrou recordes ao vender a impressionante marca de 1 milhão de cópias em menos de doze meses. O álbum arrastou multidões com os hinos "Tropicana" e "Pelas Ruas que Andei".
A partir desse estouro comercial, Alceu empilhou clássicos atemporais no imaginário popular, criando a espinha dorsal de seu cancioneiro mais célebre:
Paralelamente ao sucesso das rádios FM, Alceu promoveu uma verdadeira revolução estética no Carnaval de Pernambuco. Através do icônico projeto Asas da América e de sua simbiose com as composições aceleradas de J. Michiles (como "Bom Demais" e "Me Segura que Senão Eu Caio"), ele oxigenou o frevo para as novas gerações. Alceu transformou-se no maestro absoluto da folia, arrastando oceanos de foliões fantasiados entre as ladeiras históricas de Olinda e o asfalto do Recife.
A Poética Projetada nas Telas de Cinema
O universo visual de Alceu Valença encontrou no cinema uma extensão orgânica de sua mente criativa. Ainda em 1974, o jovem músico protagonizou o longa-metragem “A Noite do Espantalho”, dirigido pelo renomado cineasta e compositor Sérgio Ricardo. A obra, estruturada sobre uma narrativa que fundia alegoria política e elementos míticos, já desenhava o Nordeste fantástico que Alceu viria a cantar por toda a vida.
Quatro décadas depois, o artista assumiu o controle total dos bastidores ao roteirizar e dirigir o elogiado longa “A Luneta do Tempo” (2016). Inspirado em um folheto de cordel escrito pelo próprio Alceu em 1999, o filme sintetiza com maestria todo o seu cosmos artístico: cangaço, literatura de cordel, o romanceiro popular, misticismo religioso e realismo fantástico entrelaçados em uma tela de cinema, provando que a sua poética não conhecia fronteiras de linguagem.
Um Inventor de Universos Inclassificável
Ao completar 80 anos, Alceu Valença não celebra apenas a passagem do tempo ou a conquista da longevidade; ele confirma uma das trajetórias mais coerentes, livres e corajosas da cultura ocidental. Sua assinatura estética — marcada visualmente pelos cabelos longos e pela presença magnética — influenciou diretamente desde a revolução do Manguebeat nos anos 1990 até a atual cena da música independente brasileira.
Ele provou, de forma definitiva, que o sertão profundo é capaz de sonhar em cores elétricas, que o frevo pernambucano pode dialogar de igual para igual com as guitarras de Jimi Hendrix e que as heranças medievais podem perfeitamente dançar com o rock moderno. Menestrel, gênio, louco, poeta, palhaço... Alceu Valença segue na vanguarda do seu próprio tempo porque, como ele mesmo faz questão de cantar e lembrar ao mundo, “o tempo não tem parada!”.
Visitas: 37299
Usuários Online: 1