
Os desdobramentos jurídicos de um dos episódios mais violentos da história recente da segurança pública de Pernambuco ganharam um novo e definitivo capítulo. Os oito policiais militares que participaram diretamente da ação criminosa que ficou conhecida nacionalmente como a Chacina de Camaragibe foram formalmente denunciados à Justiça.
A peça acusatória, estruturada pela 1ª Promotoria de Justiça Criminal de Camaragibe em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPPE), imputa aos envolvidos a prática de dois homicídios duplamente qualificados: por motivo torpe (vingança institucional) e por meio de emboscada (impossibilidade de defesa das vítimas). Atualmente, a ação penal tramita na Vara do Júri da Comarca de Camaragibe.
Execução por Vingança na Zona Canavieira
O foco central desta denúncia específica do Ministério Público trata da caçada brutal e execução sumária de Maria José Pereira da Silva e Maria Nathália Campelo do Nascimento. Elas eram, respectivamente, a mãe e a companheira de Alex da Silva Barbosa, o "Alex Samurai".
Após a eclosão da crise na Região Metropolitana, as duas mulheres tentaram fugir em busca de abrigo no interior do estado, mas foram rastreadas.
Os corpos de mãe e nora foram localizados na manhã seguinte ao início dos confrontos, abandonados às margens de uma estrada vicinal no município de Paudalho, na Mata Norte de Pernambuco, apresentando marcas de execução à queima-roupa.
Oficiais do Alto Escalão Entre os Acusados
O relatório de inteligência e a denúncia do Gaeco expõem que a operação de vingança não foi um ato isolado de soldados na ponta, mas contou com o comando, instrução e monitoramento de oficiais de alta patente da Polícia Militar de Pernambuco.
Entre os oito nomes denunciados e que agora figuram no banco dos réus, destacam-se:
Além dos oficiais de comando, a denúncia atinge os praças e agentes operacionais que efetuaram as buscas e os disparos: Romoaldo de Oliveira Guerra, Moisés Delfino de Souza, Thiago Dizeu de Souza, Thiago Firmino Tavares, Geraldo Nascimento de Souza e Rodrigo Augusto Venâncio.
Relembre o Caso: A Cronologia do Sangue
O massacre teve início em setembro de 2023, no bairro de Tabatinga, em Camaragibe, e escalou rapidamente para uma caçada humana sem precedentes na região:
1.Confronto Inicial: O Estopim em Tabatinga.
O morador Alex Samurai envolve-se em uma intensa troca de tiros com uma guarnição da PM. No tiroteio, os policiais militares Rodolfo José da Silva e Eduardo Roque Barbosa de Santana são baleados e morrem.
2.A Caçada aos Irmãos: Transmissão ao Vivo.
Sob ordens superiores, viaturas invadem a comunidade. Três irmãos de Alex — Amerson Juliano, Agata Ayanne e Apuynã Lucas — são localizados e executados. O assassinato de alguns deles chegou a ser transmitido ao vivo por redes sociais de moradores.
3.Morte de Alex Samurai: Desfecho do Atirador.
Horas após ver sua família ser dizimada, o próprio Alex da Silva Barbosa é encurralado pelas equipes policiais de elite e morto a tiros durante a madrugada.
4.O Drama de Ana Letícia: Vítimas Colaterais.
Durante o cerco inicial a Alex em Tabatinga, a adolescente Ana Letícia Carias, grávida de 7 meses, é atingida na cabeça por uma bala perdida disparada pelos PMs. Ela deu à luz em coma e faleceu um mês depois. Outro jovem de 14 anos foi baleado na cabeça, mas sobreviveu.
A denúncia oferecida pelo Gaeco busca individualizar as condutas para garantir que o aparato do Estado não seja utilizado como ferramenta de execução sumária, blindando o processo penal para que os acusados enfrentem o Tribunal do Júri Popular pelos crimes descritos.
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