
Viver no paraíso tropical de Fernando de Noronha esconde um desafio silencioso para os seus moradores: o severo isolamento geográfico e a escassez de assistência médica especializada. Para a professora Rayane Dixie dos Santos, de 31 anos, a rotina na ilha era sinônimo de exaustão. Como mãe solo de uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) de suporte 2 e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), ela enfrentava diariamente as intensas crises de agitação e agressividade do filho, enquanto se desdobrava entre o trabalho e a criação de outro filho.
A sobrecarga cobrou o seu preço, desencadeando um quadro de ansiedade generalizada e distúrbios graves do sono. A reviravolta na vida de Rayane e de dezenas de outras famílias começou há cerca de três meses, quando seu filho iniciou o tratamento medicinal à base de canabidiol (CBD), um composto natural extraído da planta da cannabis.
“Eu sou a única que cuida dele. A rotina pesada de mãe atípica me levou a um quadro de ansiedade generalizada”, relatou Rayane, que hoje celebra a diminuição drástica das crises do filho e a reconquista da estabilidade familiar.
Projeto Noronha: Uma rede de suporte permanente no meio do oceano
Mutirões de saúde garantem consultas gratuitas e distribuição de óleo de CBD
Essa transformação foi viabilizada pelo Projeto Noronha, uma ação conjunta entre a Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e a Administração Distrital da ilha. O projeto já realizou dois grandes mutirões de saúde e alcançou números expressivos:
Diferente de ações humanitárias esporádicas, a iniciativa foca na continuidade. O plano prevê retornos à ilha a cada três meses e já garantiu a cessão de um terreno pela Administração local para a construção de uma sede própria. O espaço funcionará como uma rede permanente de acolhimento integral para famílias neuroatípicas.
Cuidando de quem cuida: O resgate das mães atípicas
"Quando a mãe está em crise, ela não tem ninguém", alerta idealizador do projeto
Um dos pilares mais inovadores do Projeto Noronha é o olhar atento para a saúde das mães. Constantemente sobrecarregadas pelo papel de cuidadoras exclusivas, muitas dessas mulheres adoecem silenciosamente. Ladislau Porto, um dos idealizadores do programa, resume a urgência desse suporte: “Quando a criança está em crise, ela tem a mãe. Quando a mãe está em crise, ela não tem ninguém”.
Rebeca Allen, presidente da AMA-FN e mãe de um menino de sete anos com TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial, sentiu na pele esse esgotamento. Em 2023, ela desenvolveu depressão e crises de pânico. Medicamentos tradicionais para dormir não surtiram efeito, mas o cenário mudou drasticamente quando ela e o filho começaram o tratamento com CBD.
“Comecei a esquecer das coisas, ter falta de ar e pontadas no coração. Mas eu pensava: ‘Meu Deus, eu sou o contato de emergência do meu filho, eu preciso me cuidar’”, relembrou Rebeca. Hoje, ela relata maior foco e organização, enquanto o filho apresentou uma redução significativa na agressividade, melhorando seu rendimento escolar e terapêutico.
O desafio da saúde pública a 545 km do continente
Relatório aponta que mais de 70% dos atendimentos na ilha envolvem saúde mental
A relevância do projeto se apoia em uma fragilidade estrutural histórica. Fernando de Noronha conta apenas com o Hospital São Lucas, unidade
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